No universo pet uma crença foi disseminada: cão macho, não castrado, de porte grande, é o que mais tem chance de reagir mal a outros cães. Um estudo publicado em 2026, com quase 1.400 cães, testou estatisticamente essa ideia. O resultado bateu de frente com o senso comum.
Resumo rápido: Um estudo com 1.360 cães descritos por seus tutores como reativos a outros cães encontrou 4 perfis distintos, combinando três componentes comportamentais (ataque oral, frustração e postura de ameaça). Nenhum perfil teve relação com sexo, castração, idade ou porte do cão. O que teve relação foi a origem e a criação do cão, e reagir também a crianças. Frustração apareceu como um processo emocional separado de postura e ataque oral, ligado a qualquer motivação bloqueada, seja fuga, seja aproximação, não só a percepção de ameaça, e frustração alta não significa, sozinha, maior risco de ataque.
Como os pesquisadores chegaram aos 4 perfis
Os pesquisadores Van Haevermaet, Soulsbury e Mills (2026), da Universidade de Lincoln, coletaram quase 2 mil respostas de tutores sobre cães descritos como “reativos a outros cães”, chegando a 1.360 respostas completas. Os pesquisadores utilizaram análise estatística e identificaram três componentes comportamentais independentes por trás da reatividade:
- Ataque oral (avançar, beliscar, morder): os comportamentos de contato físico, que realmente causam ferimento. Segundo reportagem de Colette Kase (2026), que entrevistou a pesquisadora principal do estudo, esses comportamentos são mais custosos e arriscados para o próprio cão (risco de revide), por isso são os menos comuns: apenas 24% dos cães reativos da amostra chegaram a morder.
- Frustração (latir, puxar a guia, ganir): comportamentos de alta ativação que aparecem quando o cão é impedido de fazer o que quer, seja se aproximar de outro cão, seja se afastar dele. Um cão pode ter frustração muito alta sem nunca chegar a atacar.
- Postura de ameaça (rosnar, mostrar os dentes, pelos eriçados, corpo rígido): sinalização de intenção agonística. Ainda segundo Kase (2026), 79% dos cães do estudo mostraram os pelos eriçados, um sinal de ativação fisiológica real, não só encenação.
Combinando esses três componentes, surgiram 4 perfis de cães:
- Grupo 1 — Sinalizadores de baixo risco (40% da amostra): postura e frustração moderadas, ataque oral muito baixo.
- Grupo 2 — Escaladores frustrados (18%): frustração muito alta, postura alta, ataque oral baixo a moderado.
- Grupo 3 — Escaladores impulsivos (32%): frustração só moderada, mas postura e ataque oral relativamente altos, sugerindo menos relação com intensidade da frustração e mais com controle de impulso.
- Grupo 4 — Escaladores rápidos de risco (10%): os três componentes altos ao mesmo tempo, maior risco de escalada para agressão.
O que não explica, e o que explica
O achado mais forte do estudo, curiosamente, foi encontrar aquilo que não contribui com o comportamento estudado: sexo, castração, idade e porte do cão não tiveram relação significativa com o perfil de reatividade, o que desmente boa parte do senso comum sobre “que tipo de cão é mais perigoso”. O que teve uma pequena relação, representando uma baixa influência de apenas 5% a 6%, foi a origem e a criação do cão (cães adquiridos de criador e criados em ambiente doméstico desde filhote tiveram bem menos chance de estar nos grupos de maior risco) e a reatividade que vai além de outros cães: cães que também reagem a crianças tiveram quase o dobro de chance de estar no grupo de maior risco. A maior parte do que faz um cão se encaixar em determinado grupo, os outros 94% a 95%, continua sem explicação, provavelmente envolvendo fatores que esse estudo não mediu, como genética ou histórico individual de vida.
A Escada da Agressão, e o que ela não previa
Kendal Shepherd desenvolveu, em 2001, um modelo que se tornou muito influente chamado Escada da Agressão, indicando a ideia de que o cão sinaliza desconforto numa sequência crescente, começando em gestos discretos (bocejar, lamber o focinho, virar a cabeça) e só chegando a rosnar, avançar ou morder se os sinais anteriores forem ignorados. Inclusive, foi a partir deste modelo que se consolidou a ideia de nunca repreender um rosnado, pois isso ensina o cão a pular direto para o degrau mais alto da escada quando houver uma próxima oportunidade.
A lógica da escada pressupõe um processo único por trás de tudo isso: medo ou percepção de ameaça, crescendo em intensidade. O estudo de 2026 encontrou suporte parcial para essa lógica, mas com uma ressalva importante: Postura de ameaça e Ataque oral realmente se moveram juntos nos dados, como essa lógica de processo único previria, um cão com postura mais intensa também tendeu a ter mais chance de ataque oral. Frustração, porém, não acompanhou esse mesmo padrão: um cão pode pontuar muito alto em frustração sem nunca escalar para contato físico, e um cão pode atacar sem grande frustração aparente.
Van Haevermaet explicou, em entrevista a Colette Kase (2026), que isso acontece porque frustração não depende de haver ameaça nenhuma: ela surge sempre que um comportamento motivado é bloqueado, seja fuga de algo que incomoda, seja aproximação de algo que o cão queira, como um cão totalmente à vontade que só quer cumprimentar outro cão e é impedido pela guia. É um processo diferente de perceber ameaça. Por isso, frustração e ameaça são dois processos emocionais distintos: um ligado a perigo percebido (postura e ataque oral, que seguem a lógica clássica da escada), outro ligado a motivação bloqueada (frustração, latir, puxar a guia, ganir), e frustração alta, sozinha, não é um bom preditor de risco de ataque.
O pesquisador McPeake (2019) já havia desenvolvido e validado um instrumento específico para medir frustração em cães como traço próprio, definindo frustração como a reação emocional que surge quando uma expectativa é violada, e mostrando que um cão frustrado pode até continuar obedecendo a comandos conhecidos, só que de forma menos confiável, sem necessariamente parecer “desobediente” a olho nu.
Limitações importantes
Os dados vieram de questionários respondidos pelos próprios tutores, não de observação direta do comportamento por um profissional, o que é uma limitação reconhecida pelos autores. É também um estudo correlacional e transversal, feito em um único momento no tempo, o que não permite afirmar causa e efeito sobre por que um cão específico desenvolveu determinado perfil.
O que isso muda no dia a dia
Não existe fórmula simples, e esse não é o objetivo do estudo. O que ele reforça é que “cão reativo” não é uma categoria única, e que rótulos como “cão bravo”, “cão problema”, “cão agressivo” ou “cão dominante” escondem processos emocionais bem diferentes entre si, que provavelmente pedem abordagens diferentes de manejo. Também vale reter o dado mais contraintuitivo: se você tem um cão macho, não castrado, de porte grande, isso sozinho não diz muita coisa sobre o risco de reatividade, e se você tem uma cadela castrada, de porte pequeno, isso também não garante um comportamento mais equilibrado ou sociável.
Colette Kase (2026) detalhou, a partir de entrevista com a pesquisadora, implicações práticas de manejo para cada grupo:
- Grupo 1: o manejo foca em evitar gatilhos conhecidos quando possível, e ensinar respostas alternativas, como se desengajar do estímulo e olhar para o tutor.
- Grupo 2: claramente lutam contra a contenção ou contra serem impedidos de alcançar outros cães. O manejo foca em evitar situações que aumentem a ativação, usando contracondicionamento e dessensibilização para mudar a emoção associada. A intensidade da frustração pode fazer esses cães parecerem mais perigosos do que realmente são, o que costuma tornar o manejo mais difícil na prática para o tutor.
- Grupo 3: topam fazer contato físico sem necessariamente estar em um estado de frustração alta, sugerindo menor inibição, possivelmente ligada a impulsividade. O manejo exige gerenciamento de risco desde cedo, evitar situações de escalada rápida, e estratégias de modificação comportamental de longo prazo.
- Grupo 4: categoria de maior risco, escalam rápido e vão até o fim. Encaminhamento a um especialista em comportamento é essencial, com gerenciamento de risco como prioridade imediata.
A própria equipe de pesquisa desenvolveu uma ferramenta gratuita e online para ajudar tutores a estimar em qual dos 4 grupos o cão se encaixa (disponível, em inglês, em dogreactivity.com/cluster-tool). A pesquisadora responsável faz questão de frisar que não é uma ferramenta de diagnóstico validada, não substitui uma avaliação comportamental, mas que pode ser um ponto de partida muito bom para uma conversa com um profissional.
Referências
VAN HAEVERMAET, H.; SOULSBURY, C. D.; MILLS, D. S. Reactive and risky: the behavioural structuring of “dog reactive dogs”. Applied Animal Behaviour Science, v. 299, artigo 106961, 2026. DOI: 10.1016/j.applanim.2026.106961.
McPEAKE, K. J.; COLLINS, L. M.; ZULCH, H.; MILLS, D. S. The Canine Frustration Questionnaire: development of a new psychometric tool for measuring frustration in domestic dogs (Canis familiaris). Frontiers in Veterinary Science, v. 6, artigo 152, 2019. DOI: 10.3389/fvets.2019.00152.
KASE, C. Understanding reactive dogs. Trends (American Animal Hospital Association), 23 jun. 2026. Disponível em: https://www.aaha.org/trends-magazine/publications/understanding-reactive-dogs/. Acesso em: 21 set. 2026.
WVS ACADEMY. Recognising aggressive behaviour. Disponível em: https://wvs.academy/learn/companion-animals/dog-behaviour-and-handling/dog-behaviour-the-basics/understanding-anxiety-and-aggression/recognising-aggressive-behaviour. Acesso em: 21 set. 2026.
