Steve é muito tímido e retraído, invariavelmente prestativo, mas com pouco interesse nas pessoas ou no mundo real. De índole dócil e organizada, tem necessidade de ordem e estrutura, e uma paixão pelo detalhe.
Antes de continuar a leitura, pare por um instante e responda mentalmente: há maior probabilidade de Steve ser bibliotecário ou um fazendeiro?
Se a sua resposta foi bibliotecário, você está em boa companhia. A semelhança de Steve com o estereótipo de personalidade de um bibliotecário vem à mente quase de imediato, mas, como relata Daniel Kahneman (2012, p. 14), considerações estatísticas igualmente relevantes quase sempre são ignoradas. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem mais de 20 fazendeiros homens para cada bibliotecário homem. A descrição de Steve combina, de fato, com a imagem que temos de um bibliotecário, e isso é uma informação. Mas é uma informação que precisa ser pesada junto com outra: a realidade por trás da estatística.
Resumo rápido: Em 1974, os psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman descreveram atalhos mentais, chamados heurísticas, que usamos para julgar situações incertas e que, embora úteis, produzem erros previsíveis. Um deles, a heurística da representatividade, nos leva a julgar pela semelhança com um estereótipo e a deixar a estatística de lado, como no clássico exemplo de Steve. Trago aqui uma reflexão minha, e não um resultado da pesquisa original: a de que um mecanismo parecido pode estar em jogo quando tutores explicam comportamentos difíceis dos pets com rótulos como “travesso”, “vingativo” ou “dominante”, simplificando algo que é complexo.
O que Tversky e Kahneman descreveram
O exemplo de Steve foi usado por Amos Tversky e Daniel Kahneman (1974), em um artigo clássico publicado na revista Science, para ilustrar a chamada heurística da representatividade. Heurística é uma regra de bolso, um atalho mental que simplifica um julgamento difícil, e a da representatividade funciona assim: julgamos a probabilidade de algo pelo quanto ele se parece com a imagem que temos dele. Segundo os autores, a semelhança com o estereótipo não é afetada por fatores que deveriam pesar na probabilidade, como a estatística de cada profissão na população, e essa estatística deveria entrar em qualquer estimativa razoável.
Pesquisas anteriores dos mesmos autores, citadas no artigo, indicam que, em problemas desse tipo, as pessoas ordenam as profissões por probabilidade exatamente como as ordenam por semelhança, como se as duas perguntas fossem uma só.
Isso não significa que os atalhos mentais sejam vilões. Os próprios autores destacam que as heurísticas são, em geral, bastante úteis, pois transforman tarefas mentais complexas em operações mais simples e, na maioria das vezes, nos levam a conclusões razoáveis. O problema é que, em determinadas situações, elas conduzem a erros graves e sistemáticos, e nem sempre percebemos quando isso acontece.
E se o mesmo atalho estiver em jogo dentro de casa?
Aqui entra uma analogia, e quero deixar claro que ela é minha: o artigo de 1974 trata de julgamentos de probabilidade, não de comportamento animal. Trago essa reflexão para entendermos como a nossa mente cria atalhos para compreender e resolver problemas, simplificar tarefas e dar sentido ao que não faz sentido. Acredito que vale a pena fazer tal comparação, porque é plausível que a mesma lógica esteja em jogo quando tutores enfrentam, no dia a dia, comportamentos de cães e gatos que são problemáticos, incômodos, atípicos ou difíceis de explicar.
Experimente repetir o exercício, agora com um pet. Imagine um cão que, sempre que a família sai de casa, destrói as almofadas, late exageradamente, faz xixi em locais inadequados e arranha a porta. Antes de continuar, repare na primeira explicação que veio à sua mente: “Ele está com raiva de nós”, “fez isso de pirraça”, “está me desafiando”, ” falamos alguma coisa que ele não gostou”, “foi vingança porque ficou sozinho”, “é teimoso mesmo”, “está carente”. Qual foi a sua explicação que você encontrou para o problema apresentado?
Se a sua explicação foi alguma dessas, você está em boa companhia. Há tutores que consideram um cão assim travesso, arteiro, destruidor ou pirracento, e acreditam que ele faz isso para se vingar de ter sido deixado sozinho. Outros acreditam que ele agiu assim porque, na saída, ninguém se despediu adequadamente, porque foram ditas palavras de que ele não gosta, ou porque foi feito algo que o desagradou. Nos dois casos, atribuímos ao pet motivos humanos, como vingança, ressentimento ou mágoa. Essa explicação simplifica, porque nos entrega uma história pronta, e ao mesmo tempo parece justificar por que um fato tão incômodo acontece. Com um gato que foge repentinamente do contato, pode acontecer algo parecido: ele pode ser facilmente tratado como antissocial, vingativo ou traiçoeiro.
Repare agora na sua primeira explicação: ela chegou acompanhada de uma pergunta sobre as possíveis causas de tais comportamentos, ou chegou pronta, do mesmo jeito que a resposta “bibliotecário” chegou? Com Steve, a estatística pode ser consultada. Com o seu pet, o que corresponde a essa consulta é uma investigação criteriosa das possíveis causas, que podem ser emocionais, físicas e de rotina, e nenhuma delas se resolve com um rótulo.
Há ainda um segundo atalho descrito no mesmo artigo, a heurística de disponibilidade: tendemos a julgar o quanto algo é provável pela facilidade com que exemplos vêm à mente. Explicações que ouvimos com frequência, na internet, na televisão, na conversa com a vizinhança, ficam mais acessíveis à memória e, por isso, podem parecer mais prováveis do que realmente são. E aqui cabe uma pergunta: quando procuramos uma explicação na internet, estamos buscando uma resposta legítima ou queremos apenas a confirmação daquilo que acreditamos ser verdade?
Esse tipo de equívoco não acontece não por falta de carinho ou desinteresse, mas porque atribuir uma causa simples a um problema complexo é uma forma natural de lidar com a incerteza, justamente o cenário em que, segundo Tversky e Kahneman, as heurísticas entram em ação. O custo aparece quando o comportamento indesejado se torna persistente ou escala para algo maior: aqui é quando o rótulo ocupa o lugar da investigação, a causa real tende a continuar sem tratamento, o que pode gerar desgaste na relação e sofrimento para o animal.
O comportamento animal raramente tem uma causa única. Já mostramos aqui no blog, por exemplo, como o estresse crônico pode estar por trás de um cão que “não obedece”, por que a punição não resolve e como rótulos como “cão bravo” ou “dominante” escondem processos emocionais bem diferentes entre si.
O que isso muda no dia a dia
Compreender que todos nós estamos sujeitos a esse tipo de atalho, simplesmente porque faz parte de como a mente humana lida com a incerteza, pode ser um primeiro passo para transformar a nossa relação com os animais. Sair do piloto automático das nossas certezas e olhar para o pet com atenção, profundidade e rigor científico é o convite que fazemos aqui.
Será que, às vezes, não estamos simplificando demais a leitura dos sinais dos nossos animais, ficando com a explicação que chega primeiro, que é mais convincente e que é mais cômoda, em vez de buscar a verdadeira compreensão do que eles estão vivendo e precisando?
Referências
KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Judgment under uncertainty: heuristics and biases. Science, v. 185, n. 4157, p. 1124-1131, 1974. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1738360. Acesso em: 12 out. 2026.
